Maquiava-se com vontade ininterrupta. A mulher chegou onde chegou por isso. Ninguém a domava mas domava até o ninguém. Nem super velocidade, nem hiper força. Ela possuía o poder da persuasão. Seu fraco? Sei lá. Diziam que era Pedrão.
Era uma grandiosa movimentação. O maior negócio da história do Brasil. Assinaria a Lei final. Mesmo a contragosto. Uma marquesa, princesa, realeza. A primeira assembléia possuía trinta pessoas. Em suas mãos um bilhete:
"Não preste o deserviço de jogar esse pedaço de missiva fora. Acaso me apaixonei por ti, princesa."
Ria-se da gozação. Só podia ser gozação. No dia seguinte, recebera um punhado de documentos e um pedaço rasgado de papel:
"Teus olhos são a fortaleza na qual me prendo toda noite. Te amo para além mar."
Encucava. Parecia raiva. Internamente era intrigante. Já não se ria.
"Se queres saber não saberá. Se queres me ter, terás. Agora se queres apenas saciar a curiosidade, feche os olhos. Amo-te, princesa."
"Reluz em mim esse teu vestido dourado. Só peço que me permita valorizar essa riqueza."
"Se eu fosse nobre digno de tua formosura branca eu seria o homem mais feliz do mundo. Mais que qualquer lei de liberdade."
Os bilhetes seguiam-se em ritmo angustiante. A última reunião ascendera. Era o dia de assinar a revolta dos coronéis e a sentença livre dos negros. Caminhava pelo Palácio sozinha, relutante, pensante. Teve o braço caçado e arrastado velozmente para o primeiro cômodo. Um negro belíssimo, sorridente e com lágrimas no rosto. Possuía na mão um bilhete, talvez o último. A princesa de modo algum havia se sentido insultada. Pegou-o e distribuiu as pontas do papel pela palma da mão direita. Lia o que queria.
"Sou, sim, negro. Sou brilhante por fora. Sou da cor do café que vossa Excelência ama. Assim como o ama, eu a amo. Nada plantei. Nada colhi. Somente vossos lábios não me saem do pensamento. Aprendi a escrever para ao menos contar-lhe do meu amor."
Dera-lhe um beijo na testa e sem palavras saíra da saleta. O negro permaneceu ali por mais duas horas extasiado pelo beijo respeitoso, uma gratidão. A porta abriu-se subitamente. Franziu os cenhos. A princesa não mais altiva devolvera todos os bilhetes e um beijo nos lábios, demorado, eterno, áureo.
Isabel e Pedro. A princesa e o negro.
Domingo, Novembro 08, 2009
A princesa e o negro
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Thiago Kuerques
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11/08/2009 07:59:00 PM
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Quarta-feira, Novembro 04, 2009
A bochechuda e o velhaco
Tipo boa-praça, sabe? Um petisco de gente num homem médio e bonito. Tímido, é verdade, mas de muito bom coração. E tinha uma filha linda, bochechuda e falastrona. Seu mal eram os olhos. Fingia não ver pra ser mais fácil viver.
Caminhavam, ambos, criança e adulto, sem entender quem é quem, afinal, por um sábado qualquer em uma rua qualquer de um país qualquer. Dera uns trocados para a menina sorrir mais. O outro homem pedia uma fatia de dinheiro. Pedia sentado, acuado, envergonhado. A menina virou-se para cumprimentar o homem e jogou mil cruzados para o moço. O pai da menina passou direto e resmungou para a pequena que o mundo não tem jeito e que ela nunca mais fizesse aquilo.
Linda, excentricamente calada e bochechuda. Era solteira, quarentona. Colaborava mensalmente com a Casa do Menino de Rua simplemente por querer. Era, sim, teimosa.
Qualquer dia perdido no tempo parou o carro para ir ao menor e mais sujo pé sujo para esquentar o pé com um sanduiche quente. Caminhou cerca de 200 metros à noite. Foi abordada por um homem arrumado que lhe apontou o medo. A pegou. A arrastou para o carro. E caiu. Um velhaco bateu bem atras da nuca do violento. Um velhaco sujo, fedorento e sem dentes. Um velhaco cúmplice dos cruzados.
A bochechuda lembrava-se sempre de mal a torto do pai. O mundo tem, sim, jeito. Os olhos é que devem ver tudo.
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Thiago Kuerques
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11/04/2009 05:55:00 PM
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Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Rosinha
Rosinha é uma menina. Esquece. Rosinha virou Rosa. Das trancinhas daquela festa junina que a conheci, no meu bairro, nos meus olhos, eu guardei na retina, retida esplêndida. Cinco anos. Não, não são cinco anos de saudades. Tampouco cinco anos de namoro, de diferença, de confusões, de desamores, do que aconteceu. Ela tem cinco anos é de idade. Olhava para tudo e via história. Porque as pessoas falavam ao celular se podiam falar perto, do lado? Outro dia ela me perguntou sobre o sol. Perguntou se a pessoa que ligava e desligava o sol faltasse ao trabalho. Sorri. Rosinha, acredite, essa pessoa nunca deixa de trabalhar.
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Thiago Kuerques
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10/26/2009 05:15:00 PM
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Nas gavetas Falou o poeta
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Antes de mais nada
Antes de mais nada eu quero ser feliz
Mesmo que meu marido me traia
Sem que eu seja rica
Mesmo travesti
Até preconceito vestir.
Antes que eu me case
E mesmo que eu me case
Quero primeiro ser feliz
Porque porque e porque.
Sem tatibitati.
Para que a vida comece de verdade
Uma felicidade
Por inteiro
E não pela metade.
Combinado?
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Thiago Kuerques
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10/20/2009 04:09:00 PM
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Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Interrompida
Vestia-se bem. Bem escondido, diga-se de passagem. Parecia mais uma passagem de um filme que já é lançado direto para as piores locadoras. O homem mais era um aluguel de clichês mal-feitos de normalidade que outra coisa qualquer. Nunca soava sincero. Mas dizia que a adora. Pelo menos a desejava sem esconder de ninguém.
Já ela se adorava. Pedia a si mesma que se fizesse o favor de não ficar feia. Era bonita. E além disso gostava muito de ser bonita. Comprava as roupas cujas medidas anunciavam seu corpo inteiro. Explorava cada paraíso de suas curvas. Até as orelhas provocavam o giro astuto dos homens.
Começaram a ter os rumos cruzados. Uma vez ele já estava no ônibus quando ela entrou. Não tirou os olhos dela. Reparou em seus horários. Era sempre dez e vinte e cinco da noite. E reparou também no ponto final dela. O bastardo certa vez saltou no mesmo ponto que a branca. Seguiu seus passos. E a mulher nada reparava. O homem marcou o dia.
A noite seguinte era úmida. Choveu fino pela tarde inteira. Depois disso só ressoava o molhado num som seco. Saltaram no mesmo ponto, ela antes dele. Caminhava sempre pela mesma rua movimentada e, logo após, por uma ruela cheia de cantos. Na esquina segunda o homem aproximou-se falando do tempo, do trânsito, da hora, do perigo. Falou da beleza dela. Do decote convidativo. Perguntou se tinha namorado. Não importava ter ou não ter. A rua tinha trezentos metros estreitados entre prédios altos e calçadas mal planejadas. O homem começava a tocá-la sem cerimônias. Dizia estar frio. Dizia protegê-la. Dizia-se apaixonado. Ela já se desesperava. Tentou correr e ele já a segurava pelos braços com brutalidade. Dava tapas na cara. Mandava ficar quieta. Até que ela caísse no chão.
Suja e com a alma destruída a branca chegou em casa. Sem ninguém reparar pegou uma roupa e desabou debaixo do chuveiro. Até hoje não se sabe porque a mulher veste roupas largas. Nem sabe-se até hoje separar o que era lágrima do que era água
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Thiago Kuerques
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10/15/2009 09:18:00 PM
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Sexta-feira, Setembro 18, 2009
Marcone - Fim
Rodrigo era um bom homem. Salvo suas crises de responsabilidade social, era sim, um bom homem. Mas, como tudo na história, só percebemos quando estamos atemporal ao que se vê. Como Santos Dumont, Van Gogh e outros, reconhecidos quando já era tarde demais. Era uma tarde fria, chuvosa, um dia grafite que não se desenhava muito bem.
Não sou uma pessoa lá recheada de criatividade. Pois bem que é verdade que existe o tal Marcone (que o Rodrigo conheceu depois). Na hora não consegui inventar nome. E hoje sei que o meu inconsciente gritava mais que tudo.
Marcone, por fim e sem meandros, foi meu amante. E os amantes não sabem esconder o tamanho do fogo que os queima. Sempre existem incêndios. Certa vez em um casamento da irmã de Rodrigo, em uma fazenda grande e linda, construção do Séc. XV. Marcone estava lá. E demos um jeito de nos encontrarmos num dos cantos distantes do lugar. Que mal havia, não é mesmo?
Rodrigo ainda tinha na cabeça o dia das flores. Perseguia Marcone. No casario distante cercou tudo com querosene. Pôs brasa no que era pura brasa. Não deu tempo de me matar. Marcone estava com outra de vestido bem parecido com o meu. Era um mulherengo, não nego. Mas eu não me importava. Eu não era totalmente dele. Justo que não fosse meu.
Rodrigo saiu do casamento sem comentar uma faísca do que houve. Dormimos lado a lado. Quando acordei não existia mais Rodrigo. Nem o mulinha, nem suas cuecas penduradas ao banheiro.
Meia hora depois recebi flores vermelhas sem cartão algum. E por esses vinte anos em todo dia 17 dos meses eu recebi a encomenda sem cartão, sem homem.
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Thiago Kuerques
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9/18/2009 03:53:00 PM
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Nas gavetas Pra falar de amor
Marcone
Resolvi fazer. Saí de casa assim que ele foi buscar o carro no mecânico com aquele velho problema de suspensão traseira. A suspensão do Rodrigo também andava devendo. E por tanta falta de animação eu o suspendi por uma semana. Claro, sexo não é a rotina de entrar e sair de um quarto. Suspenso, desde então. Mas hoje termina o castigo. E ele foi buscar o nosso querido mulinha para fazermos algo diferente: Motel. Oras, não preciso comentar a surpresa que é isso.
O Rodrigo é um bom namorado. Eu confesso que também sou boa namorada. Eu sou só dele. O ruim é ele saber disso. Quando um homem tem essa certeza é o início do fim. Por isso fui na floricultura e comprei lindas rosas vermelhas. Marquei para a meia hora seguinte.
Rodrigo trouxe a mulinha para o nosso evento tão aguardado. A buzina não funcionava. Mas nem era preciso. O ronco do motor já avisava da esquina a presença.
Entrou em casa, falou umas conversas meio surdas que eu só concordava fingindo entender. A campainha tocou. Pedi que atendesse, claro. E trouxe o buquê. Entregou-me e caminhou para o banho. Achei que o mundo havia acabado com a falta de reação.
- Que porra é essa? Quem é Marcone?
E tivemos a melhor noite de amor de nossas vidas. Engravidei.
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9/18/2009 03:43:00 PM
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Terça-feira, Agosto 25, 2009
Confissões de um assaltante famoso
Eu fiz curso de ator para ser assaltante. Minha assepsia de criminalidade é essa. Não roubo vacas nem lojas. Faço assaltos. Sou fã do Danny Ocean e sei que muita gente tradicionalista também idolatra essas histórias. Se duvidar já frequentei os mesmos lugares que o George Clooney frequentou. Já estive nas maiores festas, já tive a maior celebração. Porque assalto para ficar mais rico mas tenho a meus negócios legais. O ilegal não engorda.
Não sou perverso. Não sei matar. Mal sei atirar. Meus assaltos são com armas sem munição. É claro que a arte dramática é o meu segredo. Sei os palavrões certos ditos na hora certa. Sei o local exato da cabeça que encosto a arma; sei que a metralhadora é mais convincente que uma pistola comum; e sei a hora de gritar e a hora de sussurar.
Me prenda para dar uma resposta para a sociedade. Meu medo maior não é ser preso. Meu medo maior é ficar pobre.
(Baseado em uma matéria publicada na edição n° 588 da revista Época)
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Thiago Kuerques
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8/25/2009 03:48:00 PM
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Terça-feira, Agosto 18, 2009
Música espalhada
A
música
é
minha
e
se
espalha
por
toda
a
alma.
Mas
cadê
ela?
A
minha
alma.
(29/05/2006)
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8/18/2009 10:32:00 PM
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Terça-feira, Agosto 11, 2009
Imundo
Sou imundo. Ou o cara é limpo da cara lavada e espírito duvidoso ou o cara é um bendito de um imundo da alma balofa. Se Ateneu, o personagem dos livros meus, se acomete da ode às feias o que dizer do Sarmento, o cão de gravata que flutua pelos corredores de ouro da minha imensa favela? Se são 4:50 da manhã porque não caminhar pela orla da praia nula? Se chove, porque não tentar um banho de serenas gotas d’água doce e morna enviesadas pelo vento?
Sou careca. Não tenho idéias na cabeça que me façam criar penachos despenteados. Por tanto que já li, sou dos piores escritores que esse mundo já viu. Então porque escrevo? Para parecer que sei de alguma coisa. Já ouvi dizer que pintores borram seus quadros e são geniais por acaso. Eu borro os textos e já fui genial por algum dia.
Sou assassino. Mato os chatos de plantão. Tenho nome estranho, sim. Mas já ouvi dizer que em casos de insanidade mental o melhor é chamá-lo de genial.
Sou imundo, careca, assassino e genial.
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Thiago Kuerques
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8/11/2009 04:03:00 PM
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Nas gavetas Falou o poeta

