Domingo, Novembro 16, 2008

Corre que é crise

Lhe confio a asneira toda então. É mais ou menos assim. Eu vendo a minha bicicleta para você em parcelas, o tal do financiamento. E já contando com esse pagamento correto eu começo a pagar o financiamento da minha moto de um outro cara. O outro cara vendendo a moto já conta com esse dinheiro que ainda nao existe para comprar o carro que tanto deseja. E se um deles não pagar? Efeito dominó, meu caro. E quem financiou a sua dívida? A mamãe. Agora imagine isto tudo em escala global? Pronto, você acabou de entender a crise financeira que assola o mundo, a tal crise imobiliária, ou crise do crédito ou o que você quiser chamar.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Três mulheres

Sob o nome, sobre nomes, sobre o nome, meu sobrenome.

Clara evidente, clara e vidente, clarividente que é ela.

Saia, saia já. Tuas pernas, linda saia.

Lua Ana, Lua e Ana, é Luana.

A outra é a Lua.

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Mais uma mazelinha de leve

A previsão meterologica era de chuva torrencial para o início da tarde. Fazia, vejam só, um sol carioquíssimo. Tão carioca quanto o que me ocorreu ao descer do ônibus. Todo mundo decidiu olhar-me. Vestia rosa? Descabelado o cabelo estava? Sujismundo eu era? Nem sei. Não tem cura para mazelas gostosas. O perguntar cotidiano era uma das mazelas urbanas. Velha simpática, gordo assanhado, turista desinformado, adolescente burro. Todo mundo queria perguntar algo. Uma abordagem diferente foi a malvada da carne. Pela esquina terceira, se não me engano, na entrada do Dona Marta bronquei comigo mesmo. O assaltante chegou todo prosa, pegou uma titica estranha da cintura e pediu para que eu passasse minhas coisas valiosas. Ofereci o celular. Não era tão mal assim. Digo do celular, claro. Vai ver se o bandido era ou não mal? Até provar que raposa não é poddle, a bolinha da sorte já girou três vezes pro lado errado. E, voltando ao celular. Ele não quis. Queria algo realmente valioso, queria outro, queria isso não. Queria aquilo, e aquilo outro e aquilo mais. Não único, não contente. O bandido mais inteligente. Queria minhas idéias, meu raciocínio, minha mente. Queria pensamento, e daí em diante não mais pensei que nem gente. Ah, e no final, choveu. E muito.

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

Tem

Tem sintonia mas não aparece no rádio
Tem emoções mas não se ouve na Tv e nem na música do Roberto Carlos
Tem sorrisos e nem é dentista
Tem os maiores olhos e nem assim é tão fácil de se ver.

Tem fanatismo mas não é clube
Tem seus loucos fãs e não é artista pop
Tem seus seguidores mas não é crença
Tem muita gente mas não é legião.

Tem tu mas não é tua mãe
Tem tua mãe e nem é teu pai (ou padastro)
Tem um deles e nem é dinheiro
Tem dinheiro e não é rico.

Tem viajado e não é avião
Tem estudado e não sou eu
Tem saia e nem entrou, nem rodou.
Tá fresquinho, fresquinho mas não é pão.

Tem músculos e não é azarão
E se tiver pulmão? Corre de montão.
Nem tem sapato, nem tem pé.
Tem calcanhar de mulher.

Tá em boas horas mas não em todas.
Mas se realmente saber quiser
Pegue a sopa de letrinhas
E meta a colher.

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Mais um burro contando história de sabedoria

Um burro carregado de livros é um doutor.
Mas hoje em dia mais vale parecer
Do que realmente ser.

Nem pareço,
Nem sou.

Sábado, Outubro 25, 2008

Seria uma honra

Quisera eu ter a chance que tú, mais carioca que eu, tem nas mãos. Quem me dera. No máximo, me é permitido fazer da água do mar algo tão meu quanto seu. Só não me permitiram a grandiosa chance de fazer o que espero que façam amanhã. Quem me dera ter a honra de votar no Gabeira.
Porque Fernando sempre foi um dos poucos políticos que admirei. Culto e esperto soube utilizar dos instrumentos que tinha sem querer fazer propaganda com isso. O maior acerto foi ter revertido a falta de verba em algo posivito. A transperência das contas prestadas incomodou os outros candidatos. E a proposta de não sujar a cidade é, claro, primeiramente de uma intenção honrosa e exemplar e, depois disso, uma boa jogada visto que papéis e santinhos nada mais são que gastos e mais gastos.
Eu confio no Gabeira. Pela postura e pela coerência. Quisera eu ter essa chance. Seria a primeira vez na vida que eu votaria com orgulho em um candidato.

Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Os oito olhos

Não é para dizer que quebraram-me os óculos que cheguei aqui. É para dizer que apesar dos óculos quebrados eu cheguei aqui.
Só tinha percepção das coisas quando estas permaneciam a três metros de distância. Se mais, era uma coisa qualquer nada nítida, fosca, desfigurada, irreconhecível.
Não vim até aqui reclamar da solidão do caminho, dos tropeços no meio-fio e da falta de auxílio alheio. Vim para dizer que apesar de tudo isso nos tropeços eu levantei, cheguei e não mais solitário estou. Estou com você.
Só não percebi que havia mais gente. A resposta foi contundente. Por ela eu ouvi coisas. Dos lados haviam cândidas açucenas espalhadas entre gramíneos vivos gramíneos mortos provavelmente pelo pisoteio desses pródigos ninguém.
Não vim até aqui, disse uma voz grave e aguda ao mesmo tempo, para dizer que não vejo as cores. Vim, continuou a voz, dizer que apesar de não saber que sequer existem cores eu cheguei aqui.
Só enxergava preto e branco. Eu, três metros de alcance. Ela, via a todos, linda de morrer. Somamos dois observadores sôfregos e uma tênue bárbara.
Não vim até aqui, uma última voz refinada e tranquila, para dizer algo dos meus olhos. Nem gosto muito de falar. Só que vocês vieram e falaram muito.
Só percebíamos o tom de Jorge Ben no que versava e a boemia no que exalava. Apesar de tudo, era alegre e vivaz. Continuou.
Só que devia lhes alertar para o "apesar", finalizou o homem último.
Perguntei-lhe o que diabos fazia por aqui no que ele deu de ombros:
- Nunca precisei usar óculos e não reclamo por isso. Não sei o que são cores e não reclamo por isso. Não sei o que para que servem os olhos e não reclamo por isso.
Era um homem de olhos belamente azuis.

Sábado, Outubro 04, 2008

Namorada da infância - Fim

Eu estava desinspirado. Preferia não contar mais dessa história. Meu tio solteiro, velho e estranho dizia que a melhor relação era aquela que não existia. Sempre esquecia de dizer que tio e sobrinho também era uma relação mas tinha medo dele falar que nossa relação era uma das piores para ele. Este tio certa vez nos viu juntos. Nos viu em um beijo extenso. Não era discreto. Fez barulho. Deu um sorriso e foi embora. Clarisse ficou com medo que ele contasse. Porquê esconder? Eu dizia. Porquê mostrar? Dizia ela. Era despedida. A pequena me deu uma carta e um vidrinho de perfume pelo final como lembranças.
- Tenho que ir.
Ela dizia que tinha que cuidar da filha. Entendia. Pediu para que eu fosse junto. Devia ser por educação. Nessas horas não se aceita. Mas eu fui mal educado. Aceitei.
- Desculpa, mas você não fala da sua viuvez.
- Vai ver é porque eu posso ter matado meu marido e não querer que você se assuste.
Cínica. Interessante como via traços da menina em uma mulher desconhecida. Ou era estranho como conhecia uma mulher que tinha em si uma menina que sempre fez parte da minha vida. A casa era apertada e bem arrumada. Era suburbana e das mais ricas que conheci. Tinha detalhes e era lisa ao mesmo tempo.
Era aniversário do Trum, o filho da Dona Tânia lá da rua. Trum era apelido de um menino magrelo e mais alto e que eu nunca soube o nome. Alto demais para quem tinha treze anos. Crespo. Tímido. Muito tímido. Mas teve festa. A casa do Trum era no terceiro andar de um prédio de três andares e uma coberturazinha. Era na cobertura. Uma espécie de salão, um play. Até que na hora do parabêns eu não a vi. Procurei passando os olhos pelas janelas, portas e cantos. Sem sucesso. Varanda, porque não? Porque ela não seria capaz. Foi. Olhos amendoados, cílios grossos e olhar cínico. Cheguei na varanda e ela cruzou meu caminho. Voltou para o salão, bela, esbelta e canalha. Deu tempo de lançar a ironia no fundo dos meus olhos. Na varanda o Rodrigo sorria. Apenas sorria para o nada. Não me viu entrar. Não me viu estar. Não me viu sair.
Essa mulher tinha traços de Clarissinha. A gargalhada. Tomamos uma dose de caipirinha com menos limão que o necessário. Depois de algumas as coisas perdem um pouco o sentido. Ou eu passo a sentir mais que o habitual. A lua sorria. Você, caro leitor, sabe bem que tem certas luas que sorriem, certas luas que gritam e certas luas que são como certos amores antigos que estão ali mas não estão.
Naquela noite vimos a lua. Acho que pegamos no sono. Duas crianças que abusaram na dose de inocência e ousadia. Crianças das pernas pequenas, braços pequenos, bocas, pés, dedos, tudo pequeno e mente tão grande. Adultos das pernas grandes, braços e tudo grande e mente pequena. Achei o meio termo.
Naquela noite abusamos na dose de caipirinha. Dois adultos infantis, nostalgicos, ridículos.Peguei a chave. Saí. Tranquei a porta. Taquei a chave por debaixo da porta. Enquanto esperava o elevador, depois apertava a tecla P e saía do prédio eu começava a raciocinar. Tecla P. Pena. Porção. Passado. Partida. Nada volta. Tem coisa que tem que permanecer. A viúva não é a Clarissinha. Nunca será. Peguei meu celular de volta, anotei o número num pedacinho de papel e deixei em cima da mesa da sala. Quem sabe Clarissa, hoje? Ou não. O ontem não volta. Nem quando se tem treze anos rabiscando portão com iniciais, fugindo inconsequentemente para a praia, em festinha de amiguinhos ou arremessando celulares em bolsas alheias. Sejamos razoáveis e anormais. Era a minha versão Capitu e eu não sei se queria ser Bentinho.
A Capitu apareceu e me esfacelou como eu previa. Mas eu sobrevivi.

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Namorada da infância - Parte II

Um blefe. Ela aplicou um blefe. E eu compadeci no blefe de um apaixonado. Atendeu falando que demorei a ligar e que não me atendera antes porque não tinha visto. Sorriu no final da primeira frase. Conheço-te Clarisse. Viu e viu muito bem. Não atendeu para pôr adrenalina na coisa.
- Quanto tempo, Baldinho.
Sabia que era eu antes mesmo de ouvir algo. Não falei nada. Confessou ter me reconhecido assim que parei perto dela dentro do metrô.
- E porquê não falou comigo?
- E porquê o senhor não falou comigo?
Preto no branco? É, menina. Uma vez ficamos sem nos falar por uma semana. Uma eternidade. Só porque não dei nada de Dia dos Namorados a ela pela manhã. Nem quisera ouvir o que eu tinha para falar. Só disse que era pra ter a acordado como um marido apaixonado. Presente de tarde ela não queria. Não fala mais comigo porque agora é preto no branco, setenciou a pequena Clarisse. Até hoje não sei o que é o preto e o branco dela. Isso é isso, deve ser. O fato é que nem nas missas de domingo a pequena falava comigo. Disfarçava, não me via. Uma eterna semana. Depois me pediu uma flor e uma bitoca. Tudo certo. Me fez pedir desculpas. As dei.
- Não falei contigo porque fiquei com receio de não me reconhecer.
- Você tem as mesmas covinhas na bochecha. Tá uma criança grande. Nada irreconhecível, Baldinho.
- Para com isso de Baldinho, por favor.
Ela gargalhava da mesma forma. Com a mesma bravura doce da uma menina única. Falamos da viuvez dela, da filha de três anos, das viagens, da faculdade dela, da minha, da história do rabisco no portal do Seu Manel, da minha pieguice, das brincadeiras dela e da minha separação recente. Marcamos um encontro para depois da aula dela, às seis no Forte de Copacabana. É que ela trabalha em um Hotel ali na orla.
Uma vez a pequenina queria porque queria ir à praia. Mas queria que fôssemos sozinhos. Queria que eu, com treze anos, a levasse. Sabe que de Marechal Hermes até lá tem muito espaço pra se percorrer. Pegamos o trem sabe-se lá como. Uma vez no mar deixamos as coisas na areia. Um cara levou nossa sacola com uns trocados e sandalias. Não me lembro como voltamos. Sei que foi no dia seguinte, famintos e sujismundos.
Encontramo-nos pontualmente com meia hora de atraso. Paramos em um restaurante por ali mesmo. Conversamos tudo. O que era nada.
- Sabia que nos reencontraríamos.
- Porquê?
- Para irmos à praia novamente sem ter como voltar, sem planos, só por espontânea vontade.
- Está logo ali em frente. Eu topo se falarmos apenas de coisas boas.
- Fechado. Preto no branco.
Deitamo-nos lado e lado com o som das pequenas ondas na areia com os olhos voltamos para o céu. Clarissinha e Ubaldinho. Não tínhamos como voltar mesmo. Anoiteceu e a praia virou um deserto. Somente nós dois. Duas crianças. Ela se virou pra mim e pediu um beijo demorado. Abriu minha boca com a sua língua e a mexeu dentro da minha boca. Uma sensação de nojo e prazer ao mesmo tempo. Vai ver que foi por isso que não sei como cheguei em casa.
- Lembra dessa praia?
- Se você, agora Ubaldo, está se referindo àquela noite quando éramos crianças te digo que está enganado. Era Ipanema. Mas eu lembro.
Praia pra mim era tudo igual. Areia e mar. Era noite.

Domingo, Setembro 14, 2008

Namorada da infância

Uma hora da tarde. O exato instante que a manhã escondeu as caras e a tarde assume o
controle do dia. E foi por aí que havia fechado o livro. Não guardei a página mas foi à
altura das artimanhas da Capitu pra cima de Bentinho, ainda novos. Quero uma manhosa, uma
artista, quero uma cheia de artimanhas. Quero que saiba exatamente a manha de ser e não
apenas de estar. Ser ou estar é que nem o muito bom pra agora ou bom para quase sempre. Você aí do outro lado me entende? Quero uma Capitu para me apaixonar, me consertar ou perder a
sanidade de vez.
Rabiscou o portão do Seu Manel. Escreveu nada. Só rabiscou. Pôs a letra C e a letra U. Castelo? Casa? Carniça? Adorávamos brincar. Um? Umbigo? O meu é daqueles que é um vão com um morrinho dentro. A da maioria é apenas um vão. Um buraco. Mas o U, no caso, era de Ubaldo, Ubaldinho, Dinho. Podia ser. Todos me chamavam de Dinho, exceto ela que ou chamava de Ubaldo ou de Baldinho só pra me irritar. Olhos amendoados, cílios grossos e olhar cínico. Éramos malditas crianças de treze anos descobrindo as coisas. A diferença era de quatro meses na idade e que ela parecia saber de todas as coisas da vida e eu ainda descobrindo. Uma puta
virgem e apaixonante.
Estação Del Catilho, metrô linha 2, sentido Estácio. Não sei porquê mas a moça de vestido preto me fez lenvantar os olhos, a cabeça, o corpo. Passou e parou no final do vagão. Levantei e permaneci de pé a uns três metros dela. Era magra. Muito magra. Nem tão magra. Mas era magra. Sei lá. Descobri em cinco segundos o que me tomou a atenção. Olhos amendoados, cílios grossos e olhar cínico. Sorriu pra meia-dúzia e saiu cínica continuando a viagem até a Carioca. A segui. Quando parou para atravessar a rua após sair da estação recostei a centímetros, milímetros se fosse o caso. Senti um perfume bom. Taquei meu celular como um assaltante às avessas dentro da bolsa dela. Voltei e a dois dias não durmo.
Época boa. Um dia brincávamos de imitação até que fui atender mamãe. Havia voltado em trinta minutos. Deparei com Clarice dormindo no sofá, uma anja. Na frente do sofá havia um espelho grande. Chamei-a umas vezes sem sucesso. Comecei a ler sozinho um conto que líamos sempre.
Reparei quando me virei de frente para o espelho que Clarisse abriu inocentemente os olhos. Voltei e ela continuava estática. Fingida.
Assim que cheguei ao trabalho toquei para o meu celular. Faziam uns vinte minutos depois que
pus o celular na bolsa dela. Não atendeu. Continuei tentando. Ela atendeu.